quarta-feira, 1 de abril de 2009

O Menino de Sua Mãe


O meu amigo Gaspar de Jesus - blogue ARTE FOTOGRÁFICA - é um profissional de fotografia de excepcional qualidade.
Vale a pena visitar o seu blogue onde diariamente podemos admirar os seus trabalhos de um nível acima da média e onde o autor revela a sua extrema sensibilidade perante as pequenas coisas do dia a dia.
Destaco a série que tem vindo a publicar nos últimos dias, subordinada ao tema SINAIS DE RELIGIOSIDADE. Acreditem que vale bem a pena ir ver.

A fotografia que hoje publico é de Gaspar de Jesus. A neve sobre as cruzes das campas fazem lembrar soldadinhos com os seus barretes e com dragonas sobre os ombros. As flores são o símbolo da saudade de alguém anónimo, mas certamente preso às recordações do passado e da perda prematura de um ente muito querido. Para mim é das fotografias mais expressivas que já vi em toda a minha vida.

Espero que o Gaspar me perdoe a ousadia de publicar este seu trabalho, sem a sua autorização expressa - é uma partida que lhe prego e uma homenagem que lhe faço -, mas acreditem os meus leitores que não consegui resistir ao impulso de o divulgar.

Achei que o magnífico poema de Fernando Pessoa seria bem adequado para complementar o post.


Cemitério de Guerra - Lion - França (2000)


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado -
Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

Fernando Pessoa