quinta-feira, 16 de abril de 2009

Conta-me Como Foi


Há dias escrevi um pequena nota sobre o caso das roupas das funcionárias da Loja do Cidadão de Faro e opinei que era um Regresso à Ditadura Fascista.

Acabei de ler um artigo da autoria de Helena Roseta, publicado no Jornal Público, com o título de uma excelente série de televisão que tem passado na RTP Canal 1: CONTA-ME COMO FOI

Aqui o reproduzo, com a devida vénia:

"Comecei por ter um problema de mangas. Quando era miúda, menina que ousasse ir à missa no Verão com vestido sem mangas era imediatamente admoestada. Tínhamos de andar sempre com um casaco de malha à mão, coisa que até hoje me deixou de mal com semelhante acessório.

Mais tarde, apareceu o problema das meias. Pelos meus quinze anos, comecei a largar os soquetes pelas meias de vidro (ainda não havia collants). À porta do Liceu Maria Amália, as vigilantes investigavam-nos com muita atenção para verificar se trazíamos as pernas cobertas, mesmo que apenas de nylon transparente.

Por fim, veio o problema das calças. Foi já na universidade, em 1969, que decidi ir pela primeira vez de calças para as aulas. Era um par de jeans de bombazina, amarelo-torrado, que tinha trazido de Espanha. Foi um acontecimento. Mulheres de calças só no Verão e na praia, de preferência em estilo "corsário", mas nunca na Baixa, onde se situava a Escola de Belas-Artes em que eu estudava Arquitectura. A coisa passou como uma extravagância "artística", mas ainda recordo os olhares de censura sobre mim, Chiado acima, nesse funesto dia.

Por estas e por outras, o 25 de Abril acabou por ser também uma libertação no tocante ao vestuário. Uma das primeiras grandes decisões que tomei lá em casa, ainda antes daquele inesquecível 1.º de Maio de 1974, com Lisboa toda na rua e a Primavera a rebentar, foi decretar o fim do uso das botas da escola das crianças: dali em diante, a liberdade passava por sandálias.

Mas a verdade é que os meus problemas não acabaram com a instalação do novo regime democrático. Já nos anos 80, era eu Presidente de Câmara em Cascais, onde costumava chegar todos os dias muito cedo. Um belo dia, resolvi levar umas bermudas, último grito da moda, compradas em França. Horas mais tarde, a minha mãe telefonava-me, muito aflita. Alma caridosa tinha alertado o prior para o "escândalo" e o "mau exemplo" que eu estava a dar. Nesse dia, com 36 anos, fiz uma jura solene: nem padre, nem mãe, nem ninguém me haveria nunca mais de dizer o que podia ou não vestir.

Entretanto, a sociedade evoluiu e os hábitos de vestuário também. Os jeans, que eram um adereço informal difícil de comprar em Lisboa há 40 anos, são hoje uma peça universal e um símbolo de moda apropriado pelas melhores marcas. O mesmo aconteceu com as sapatilhas, antes só imagináveis para uso desportivo e que agora, para grande conforto dos pés das mulheres, se calçam todos os dias.

Por tudo isso, a notícia de que uma tal Agência de Modernização Administrativa está a impor um dressing code na Loja do Cidadão de Faro, que inclui a proibição de "saias curtas, decotes exagerados, gangas e perfumes agressivos", soou-me a um impensável regresso ao passado. Há "modernizações" que mais não são que uma espécie de extreme make-over directamente inspirado pelos códigos pseudopuritanos e repressivos do salazarismo. Presumo que o toque "moderno" tem sobretudo a ver com os "perfumes agressivos". Seja como for, a imposição de tais normas de vestuário, ainda por cima só para mulheres, é serôdia e inaceitável.

Ora aqui está um caso para a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego se pronunciar. Por mim, sugiro às funcionárias da Loja do Cidadão de Faro uma forma especial de luta: exigir que o Estado lhes ofereça fardas de corte Armani. Só assim poderão brilhar nas inaugurações oficiais que o engenheiro gosta de nos servir todas as noites pelo telejornal."

Helena Roseta
Arquitecta e membro da Comissão Coordenadora do MIC

(Imagem retirada daqui)