quarta-feira, 4 de março de 2009

Infante D. Henrique



Ponta de Sagres - Agarve - Portugal

Quinto filho d’el-Rei D. João I e de D. Filipa de Lencastre, nasce a 4 de Março de 1394 na cidade do Porto.

"Chamam-lhe Henrique, o Navegador, e dá-me vontade de rir pois navegar, Vossemecê só navegou até Marrocos, em cima de um convés mais longe não foi... Pôs foi criados e escudeiros seus a navegar por si. E chegou mesmo a contratar, a peso de ouro, estrangeiros que pudessem fazer progredir a sua empresa, tais como Jaime de Maiorca, o cosmógrafo e cartógrafo catalão; e Bartolomeu Perestrelo, Cadamosto, Uso di Mare e António da Noli, navegadores e peritos comerciais italianos; também físicos hebraicos e aventureiros vários. Não, não estou a falar da fantasiosa Escola de Sagres. Essa nunca existiu, foi inventada por patrioteiros que mais tarde endeusaram Vossemecê para arrebicar o conceito de Nação. Não estou portanto a falar de uma escola náutica. Falo apenas (e já é muito) de um agrupamento de homens dispostos a fazerem-se ao mar, a observar astros, ventos, marés e a desenhar costas. A todos eles, portugueses e estrangeiros, Vossemecê paga regiamente. Generosidade? Não me parece. Eu diria perspicácia porque, ao pagar bem, o seu interesse é manter coesa a sua empresa. E onde há interesse, generosidade omite-se. O avesso amargo da sua perspicácia e da exorbitância dos seus gastos pessoais, é Vossemecê andar sempre à rasca de finanças. Mas logo trata de inventar soluções, uma atrás da outra: ou a pirataria contra os navios mouros no Mediterrâneo, ou o monopólio da pesca do atum, ou a dízima sobre todo o peixe apanhado em Monte Gordo, ou o monopólio do abastecimento de peixe a Ceuta, ou o controlo da moagem de cereais e da produção de tintas e sabões no Algarve. Apesar de homem soturno, de poucas palavras, Vossemecê começa a revelar um dos principais traços do homem português: a improvisação, o desenrascanço...

Mas falemos agora das navegações. Vossemecê manda os seus navios rumar para o sul, rente à costa africana. Espera que se descubra a foz do rio que leve os portugueses até ao Reino do Preste João... Esta ideia parece-nos hoje um absurdo mas, dado o desconhecimento geográfico da sua época, é esperança que Vossemecê acalenta... Essa ânsia de alcançar a Índia rumando para o interior da África, em 1445 levará João Fernandes, que fala perfeitamente o árabe, a percorrer o Sudão e a alcançar Timboctu, centro das caravanas que, no deserto, transportam as mercadorias preciosas do Oriente e da África. E a mesma ânsia, em 1446 levará Nuno Tristão a subir um rio da Guiné (talvez o Barbaci), sendo então atacado e morto pelos nativos.

Olhemos então os seus navios a singrar junto à costa africana. Só as tempestades é que os arrastam para o largo do Atlântico. Golpes de vento, golpes de azar... É assim que, por mero acaso, é descoberto o arquipélago dos Açores (1427). Só em 1439, doze anos depois, é que Vossemecê manda povoar as ilhas. Tardou, mas ainda vai a tempo de converter azar em sorte, pois o arquipélago começa logo produzir e a dar boas receitas.

Quanto ao arquipélago da Madeira, esse já era conhecido desde meados do sec. XIV. E em 1425, por ordem de D. JOÃO I, é iniciada a sua colonização. Em 1433, D. Duarte, seu irmão e novo rei por morte do vosso pai, doa-lhe o arquipélago, já que Vossemecê andava a cuidar dos negócios de Além-Mar. Portanto, felizmente para si, uma nova fonte de renda...


As Canárias é que são conhecidas desde a Antiguidade com o nome de Afortunadas. Desde os finais do sec. XIV que o seu domínio é disputado por portugueses e castelhanos. Em 1436 o Papa Eugénio IV reconhece o direito de Castela à posse do arquipélago. Vossemecê não aceita a decisão papal e trata de acirrar a disputa entre portugueses e castelhanos. Mas se Eugénio IV contrariou os interesses dos portugueses, em contrapartida, em 1455, bula do Papa Nicolau V concederá aos reis de Portugal a propriedade exclusiva das terras e mares já conquistados ou por conquistar, possuídos ou a possuir.


Falemos agora da África. Em 1426 Gonçalo Velho, seu mareante, dobra o Cabo Não, mais ou menos a 26 graus Norte. Dali para a frente só rochedos, escarpas e dunas, ondas altíssimas a rugir contra os penhascos. Correm as lendas do Mar Tenebroso e ali parece, realmente, que se chegou ao fim do mundo. O mar ferve em cachão e ao longe o Cabo Bojador parece marcar a divisa entre a vida que é possível mais a norte e o fatal império da Morte mais a sul. Quem tem coragem de ir além? Oito anos depois, em 1434, Gil Eanes arrisca-se e dobra o Cabo Bojador depois de frustradas tentativas, muitas. Fundeia umas tantas milhas mais ao sul, desembarca e colhe um ramo de rosas silvestres que provam ser ali a vida também possível...


Dobrado o Bojador tudo é mais fácil. No ano seguinte, em 1435, o mesmo Gil Eanes e Afonso Baldaia passam o Trópico de Câncer (23,5 graus Norte) e alcançam o Rio do Ouro, assim chamado porque nas suas areias, para a sua felicidade, ó D. Infante, há realmente ouro. Em 1441 Nuno Tristão dobra o Cabo Branco, na hoje chamada Mauritânia. E em 1443 alcança a ilha de Arguim, onde os árabes mantêm um mercado regular de escravos e produtos ricos. Porque Vossemecê está muito interessado em tal comércio, nessa ilha manda construir uma fortaleza-feitoria e doze anos depois (1455), em Lagos funda a feitoria de tratos de Arguim. Mas é preciso recordar que em 1443, o INFANTE D. PEDRO, regente por morte de D. Duarte, concedera-lhe o monopólio de navegação, guerra e comércio nas terras ao sul do Bojador. É preciso ainda lembrar que em 1441 foram desembarcados no Reino (em Lagos) os primeiros cativos negros. Clérigos trataram de evangelizá-los. Em consequência, os cativos, depois de entregarem a força de seus corpos a seus brancos senhores, passaram a entregar as suas almas ao Criador...


Alcançada a foz do rio Senegal em 1445, os navegantes informam que mais à frente a costa começa a embicar para leste. Vossemecê esfrega as mãos, afinal estaria errado o mapa de Ptolomeu. Parece que os mareantes acabam de chegar ao fim do continente africano e, finalmente, Vossemecê vai poder realizar o seu Plano das Índias, não atravessando mas contornando a África pelo sul. Engana-se, desta vez é Vossemecê quem se engana! Os nautas estão apenas a chegar ao Golfo da Guiné, em breve alcançarão o arquipélago dos Bijagós e a África prolonga-se mais para o sul, muito e muito mais para o sul...

Vossemecê engana-se mas, em cerca de trinta anos, mandou descobrir e foram descobertos, descritos e cartografados 20 graus da Terra. É obra! Ao improviso, aos sacões, afinal Vossemecê acabou por aplanar o terreno sobre o qual D. JOÃO II, o seu sobrinho-neto, irá levantar o bem gizado edifício dos Descobrimentos." (Texto de Fernando Correia da Silva in Vidas Lusófonas)

3 comentários:

  1. Jorge C. Reis, já tenho selecionado o tamanho maior de publicação de imagem! Não sei como fazer, para o aumentar mais ainda. Terei de mudar de modelo?

    Com mais tempo lerei este post sobre os descobrimentos! Volto depois!
    beijinhos

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  2. Todos os portugueses estão ligados umbilicalmente a Sagres.

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  3. Esta abordagem ao Infante D. Henrique está um primor.
    Parabéns ao autor e a ti por a partilhares connosco.
    Bjo,

    Milouska

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