quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Augusto Gil - Um poeta popular


Já há tempos publiquei neste blogue um pequeno poema de Augusto Gil, intitulado "A Pérfida Cloé".
Não poderia deixar de voltar a referir-me ao poeta no dia do 79º aniversário do seu falecimento.

Augusto César Ferreira Gil, nasceu em Lordelo do Ouro a 31 de Julho de 1873 e faleceu na cidade da Guarda onde viveu desde os três anos, em 26 de Novembro de 1929.

Estudou direito na Universidade de Coimbra onde privou de perto com um grupo de insignes oradores e poetas como Alexandre Braga, Fausto Guedes, Teixeira de Pascoais no tempo em que prevalecia a poesia lírica de João de Deus, que o inspirou.

Influenciado por Guerra Junqueiro, João de Deus e pelo lirismo de António Nobre, a sua poesia insere-se numa perspectiva neo-romântica nacionalista.

Obras poéticas: Musa Cérula (1894), Versos (1898), Luar de Janeiro (1909), O Canto da Cigarra (1910), Sombra de Fumo (1915), O Craveiro da Janela (1920), Avena Rústica (1927) e Rosas desta Manhã (1930). Crónicas: Gente de Palmo e Meio (1913).

A sua vasta obra é composta por uma poesia simples que de imediato foi adaptada pelo povo que ainda hoje o canta em variadíssimos fados.

De várias obras dispersas, destacam-se as publicações em livro:

"Alba Plena" : onde pretende relatar a vida da mãe de Jesus sendo os últimos dois versos deste poema o seu epitáfio no cemitério da Guarda: "... e a pendida fronte ainda mais pendeu/e a sonhar com Deus, com Deus adormeceu".

"A Canção da Cigarra" : (sátira às mulheres) o seu ego ferido por um amor que temporariamente se afasta (e com quem veio casar mais tarde) traz à tona a sua veia satírica das mulheres e da sociedade daquela época. De toda esta obra destaca-se sem dúvida alguma a série de quadras que compõem a “Canção das Perdidas” verdadeira obra prima, cujas trovas de tal modo adaptadas pelo povo acabaram por perder toda a noção de autoria.

"Luar de Janeiro" : onde se destaca A Balada da Neve e O Passeio de Santo António (Fonte: Laura Poesias)

A Balada da Neve

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho.

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.


O Passeio de Santo António (Fado)

5 comentários:

  1. Mais um Poeta de que gosto muito, há anos e anos...
    A música e a voz de João Machado : muito bem, com sentimento.
    Quanto às imagens do vídeo : foi o que se arranjou, não é verdade?
    Como diria o Eduardo: Estamos aqui para ouvir Augusto Gil, não numa sala de cinema! :):):)

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  2. Olá João Menéres
    Obrigado pelo comentário
    O vídeo é do Youtube, não é meu. Eu prezo-me de fazer um pouco melhor (rsss)
    Abraço

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  3. Pois, eu disse: Foi o que se arranjou...
    Se não soubesse o seu gosto, não teria dito...

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  4. Ei, mas um que eu não conhecia. Que beleza!

    obrigada

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  5. Um belo poema acompanhado de uma música igualmente bela.
    Bjos,

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