domingo, 12 de outubro de 2008

O humor de Natália Correia

Em finais de Agosto escrevi um artigo em que transcrevi um poema de Natália Correia , cujo tema era um episódio caricato passado no Parlamento Português. Esse artigo chamava-se "O sexo quente & o Truca-truca" e pode ser lido (ou relido) aqui.

Hoje vou recordar outro episódio, também passado na nossa Assembleia da República.

Quem não se lembra da Cicciolina e alguns filmes porno que ela protagonizou? Os mais novos talvez não...
Pois então...
Registada com o nome Anna Ilona Staller, adoptou o nome artístico de Cicciolina na década de 70 quando participa num programa de rádio que a tornou famosa: “Voulez vous coucher avec moi?” (Queres deitar-te comigo?).
Filiada no primeiro partido ambientalista italiano – Lista do Sol – adere ao Partido Radical em 1985, sendo eleita deputada ao parlamento italiano, sem por isso abandonar a carreira de artista porno.
É nessa dupla qualidade, de artista e de deputada, que Cicciolina visita Portugal em 1987, como artista actuando no Coliseu dos Recreios, e como política visitando a Assembleia da República, ambos em Lisboa.
Por ocasião de sua visita ao Parlamento a então deputada italiana, em plena escadaria, apresentou os atributos "político/peitorais" que, certamente, contribuíram para a sua eleição em Itália.
Deixou descair a alça do vestido, mostrou o seio e ... imaginem as reacções imediatas por parte dos nossos Senhores Deputados mais conservadores, os do partido da democracia cristã.
Os pobres nem se lembraram das estátuas existentes na Sala do Plenário, nem sequer de uma das imagens mais paradigmáticas da República Portuguesa.



Natália Correia, sempre atenta a estes episódios e com aquele humor cáustico que a caracterizava, escreveu:

Estava o Parlamento em tédio morno
Do Processo Penal a lei moendo
Quando carnal a deputada porno

Entra em S. Bento. Horror! Caso tremendo!


Leda à tribuna dos solenes sobe

A lasciva onorevole Cicciolina

E seus pares saudando ali descobre

O botão rosado da tettina.


Para que dos pais da Pátria o pudor vença,

Do castro bracarense o verbo chispa:

«Cesse a sessão em nome da decência

Antes que a Messalina mais se dispa.»


Mas - ó partidas que prega a estatuária! -

Que fazer no hemiciclo avesso ao nu

Daquela estátua que a nudez plenária

Ali ostenta sem pudor nenhum?


Eis que o demo-cristão então concebe

As vergonhas velar da escultura.

Honesta inspiração do céu recebe

E moção apresenta de censura:


«Poupado seja à nudez viciosa

O olhar parlamentar votado ao bem.

Da estátua tapem-se as partes vergonhosas.

Ponham-lhe cuequinhas e soutiens.»


(NATÁLIA CORREIA, Cantigas de Risadilha)

1 comentário:

  1. Talentosa essa saudosa Natália Correia...
    Ainda hoje à tarde a ouvi num duplo LP (sim, LP !) da Amália com Jobim...
    Fantástico, este Album que reune ainda David Mourão Ferreira e outros nomes que jamais esqueceremos.

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