terça-feira, 14 de outubro de 2008

Heroicidade no Mar - O caça-minas Augusto Castilho

Esta é uma história verídica passada durante a Primeira Guerra Mundial (1914/1918).
No dia 13 de Outubro de 1918, largou da Madeira com destino aos Açores o vapor São Miguel, transportando carga e duzentos e seis passageiros, escoltado pelo navio patrulha Augusto Castilho comandado pelo primeiro-tenente Carvalho Araújo. O navio patrulha era um antigo arrastão, transformado em navio de guerra pela adição de duas pequenas peças de artinharia, uma de 65 mm à proa e outra de 47 mm à popa. Parte da sua guarnição era constituída por pessoal da Armada e outra parte pelos seus antigos tripulantes.
Ao amanhecer do dia 14 de Outubro encontravam-se os dois navios a cerca de duzentas milhas de Ponta Delgada quando, subitamente, começaram a ver cair à sua volta granadas de grosso calibre que levantavam enormes colunas de água. Só então se aperceberam de que estavam a ser atacados a tiro de canhão por um submarino navegando à superfície. Aos gritos de «submarino!», «submarino!», o vapor aumentou a sua velocidade para catorze nós, que era a sua velocidade máxima, enquanto o navio patrulha passava a postos de combate, aumentava também a velocidade para dez nós, que para mais não davam as suas máquinas, começando a disparar a peça de ré contra o submarino e a lançar uma cortina de fumo para se encobrir a si e ao São Miguel.
O submarino era o U-139, um poderoso cruzador submarino alemão, armado com dois enormes canhões de 150 mm. O seu comandante era o capitão-tenente Von Arnaul de La Periére. 
Iniciou-se então um insólito duelo de artilharia entre a minúscula peça de ré do navio patrulha português e os dois monstros do submarino que, para poder usar ambos, era obrigado a guinar ora para um bordo ora para o outro, o que fazia aumentar a distância. O certo é que, graças à cortina de fumo lançada pelo Augusto Castilho e à pequena dimensão do alvo, os artilheiros alemães não conseguiam acertar com nenhum tiro. Mas as caixas de fumo acabaram-se, a visibilidade melhorou. O submarino aproximou-se e as granadas alemãs começaram novamente a cair muito perto dos dois navios portugueses.
Receando que o São Miguel fosse atingido, o Cmd. Carvalho Araújo inverteu o rumo e avançou direito ao submarino.
Entretanto o Augusto de Castilho começava a ser atingido por estilhaços de granadas e a ter os primeiros mortos e feridos. Cerca de uma hora depois de ter começado o combate, o Cmd. Carvalho Araújo, vendo que o São Miguel já estava muito afastado, inverteu novamente o rumo e tomou o caminho do vapor, perseguido pelo submarino que continuava a bombardeá-lo intensamente. É certo que nenhuma das granadas alemãs até então lhe tinha acertado em cheio, mas as que caiam mais perto produziam uma chuva de estilhaços que continuavam a fazer vítimas. Pelas oito da manhã acabaram-se as munições da peça de ré do navio patrulha. Mais uma vez o Cmd. Carvalho Araújo inverteu o rumo e aproou ao submarino unicamente com a intenção de gastar todas as munições da peça de vante antes de se render. Quando estas se esgotaram mandou parar as máquinas e colocar a bandeira a meia adriça. Mas o fogo do submarino continuava. Mandou então içar uma bandeira branca juntamente com a bandeira nacional, mas nem por isso o fogo do submarino abrandou. Nessa altura uma granada acertou em cheio no patrulha e uma onda de estilhaços varreu o navio. O comandante caiu morto e o imediato, guarda-marinha Armando Ferraz, sofreu ferimentos ligeiros pela segunda vez.
Foi então que ocorreu um acidente grave a bordo do submarino. Uma das suas granadas explodiu prematuramente ao sair da boca da peça provocando avarias no seu casco exterior e em alguns tanques de combustível.
Vendo-se agora obrigado a reparar as avarias produzidas pela sua própria peça, o comandante do submarino deu finalmente a ordem de cessar fogo, pondo termo ao combate.
Ao ser içado o sinal de rendição, a guarnição do navio patrulha português apressara-se a pôr as embarcações na água e a abandonar o navio. Mas uma das baleeiras estava muito danificada e foi ao fundo. A outra com vinte e nove homens a bordo, muitos deles feridos, seguiu à vela, sob o comando do aspirante Samuel Vieira, para a ilha de Santa Maria onde chegou dois dias depois, tendo-lhe morrido um dos feridos durante a viagem. Os restantes doze homens, que tinham sido os últimos a deixar o navio, conseguiram, com um sobretudo dobrado, remendar o bote no qual, sob o comando do guarda-marinha Armando Ferraz, alcançaram a ilha de São Miguel após uma portentosa viagem de cerca de duzentas milhas a remos, sem comida e praticamente sem água.
O Augusto Castilho acabou por ser afundado com cargas explosivas colocadas a bordo. (Fonte: Portal da Marinha)

8 comentários:

  1. Jorge,

    História quase cómica amigo,de muita bravura e perigosidade,de como era aquela época e as suas guerras mundiais,que parecem-nos agora tão distantes...

    Abraço amigo,
    joao

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  2. História muito interessante.
    Não sabia que Portugal havia participado da 1ª Guerra, imaginava que havia sido uma nação neutra, como na 2ª.
    Esta história que contastes me reacendeu a memória e me inspirou a contar uma outra, que certa vez li ao visitar a ilha de Trindad, território brasileiro no meio do Atlântico.
    Em breve a publicarei no meu blog.
    Abs

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  3. Jorge,
    Esta postagem é muito oportuna. Primeiro, pela efeméride em si. Depois, porque dá a conhecer factos da História de Portugal que muitos não conhecem.
    O Carvalho Araújo e seus subordinados são um mero exemplo do que era o Amor à Pátria...

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  4. O Carvalho Araújo fazia parte do meu imaginário infantil. São imagens que não se perdem. Também fiz um post sobre o assunto.

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  5. curiosamente tropecei neste post após abordar com um amigo meu este incidente...
    A primeira vez que ouvi falar sobre o Comandante Carvalho Araújo e seu navio Augusto Castilho foi enquanto miúdo quando duas senhoras me contaram a historia de como enquanto crianças fizeram uma viagem num vapor e de como foram obrigadas a recolher ás cabines porque o navio estava a ser atacado, (curiosamente lembro-me das ditas senhoras mencionarem o desligar de todas as luzes no vapor para não serem visíveis do submarino (tal implicaria ter sido de noite o encontro?) depois contaram-me como os actos Heróicos do comandante Carvalho Araújo com o seu derradeiro sacrifício salvaram as suas vidas e de muitos outros, foi uma história empolgante para um miudo pequeno, nunca a esqueci... Quanto ás senhoras que me contaram esta fabulosa história... a minha avó Corina e tia avó Ludovina, se Deus quiser estão a relembrar esta história num outro lugar melhor...

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  6. Existe um pequeno livro editado pelo Jornal "Diário de Noticias" (Ou editora? julgo que foi nos anos 40) que relata este combate entre o Augusto Castilho e o U-139.
    O meu avó foi dos poucos sobreviventes deste combate, tratava-se de José Batista Martins.

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